Família Curitibana e a visita surpresa.

December 31, 2016

 

Em novembro de 2016, fez nove anos que estamos morando no interior do Paraná, foi um desafio muito grande vir para uma cidade do interior, digo desafio, pois morávamos em Curitiba e lá que estão nossos laços sentimentais mais fortes. 

 

Tudo é diferente, é como se estivéssemos em outro país. 

 

Na capital temos irmãos, irmãs, cunhadas, cunhados, sobrinhos primos e tios. Ah! Não podemos esquecer os velhos amigos, que são tantos! Porém inesquecíveis pois todos são de longas datas, em média com 30 anos de amizade bem seletas e diversificada.

 

Morar no interior é bem diferente de morar na capital, tem suas diferenças e suas particularidades, não que seja ruim, mas é diferente, são hábitos distintos com particularidades impressionantes.

 

Em Curitiba, você é um anônimo, virou a esquina já era, ninguém   te conhece, ninguém fica te perseguindo com o olhar e você não é o motivo das conversas e nem dos olhares curiosos.

 

O curitibano é diferente de qualquer brasileiro, digo isso pois nossos hábitos, nossa educação e os nossos valores são tipicamente curitibano.

 

Exemplo disso, é comer um cachorro quente com duas “vinas”, tomar um “tubão”, usar “japona” no frio, lavar os pés antes de dormir quando era criança, usar o pronome de tratamento “piá” se referindo a um amigo, xingar de “lazarento morfético” um desafeto de trabalho, pedir meio quilo de “mimosa”, avisar que deixou algo para lá  usando a expressão “larguei os bets”, ficar “de varde” depois do almoço, olhar dentro do sapato antes de calçar com medo de encontrar uma aranha marrom e outras coisa que só os curitibanos fazem.

 

Outro exemplo, é a relação com as visitas surpresas, o curitibano detesta. Não por ser antipática ou arrogante, mas por causa do respeito com a visita, com preocupação do atender bem, com a cerimonia que o mesmo faz para receber uma visita, com os detalhes com o ritual, que inicia na hora de chegada até a hora da partida do celebrante.

 

Para quem não sabe, receber visita é um ritual, é uma honraria que tem suas particularidades com visitante.

 

Quando alguém vem sem ser convidado é um Deus nos acuda, todos os membros do clã ficam apavorados por questões simples vinculadas com a limpeza do recinto aos trajes usados no momento do tocar a campainha.

 

Geralmente isso acontece quando toda a família faz uma pausa para o ócio, pausa essa que  ficam a deriva: a louça suja na pia, cobertas na sala de tv, chinelos espalhados pela casa, roupas intimas penduradas nos banheiros, quem tem cachorro como nós, uma cheiro desgraçado de cocô de cachorro,  o cocô que nosso filho reluta em limpar, sapatos na porta de casa e não temos como ocultar  a informação do  macho alfa da família usando uma bermuda azul rasgada com a velha camiseta do colégio santa cândida que mostra a metade de pança, camiseta essa, com uns 15 anos de uso, o filho de pijama o dia inteiro e ainda com a camisa do “parmeira” que mal cabe no sujeito, sem contar algumas garrafas de águas espalhadas sem tampas pela casa,  e a patroa longe de seu glamour, com aquele shorts  que mal cabe na bela e  com a ausência de sua fragrância de rainha.

 

A visita surpresa faz a família entrar em um caos no momento de repouso, os membros  entram em um desespero alarmante que leva aos receptores a uma dúvida cruel,  o que fazer primeiro? Atender a porta, fazer um arrastão de limpeza em toda a casa, ou trocar os modelitos do ócio familiar.

 

Nestes casos geralmente a família se transforma, e o mais impressionante é a logística, a eficiência da uma família curitibana nestes minutos de desesperos com inesperado.

 

O macho alfa grita para a visita! Já vai! Espere um pouco!

E essa é a senha! Para que todos os membros do clã saiam correndo escondendo tudo o que veem pela frente.

 

A louça da pia é toda recolhida no micro-ondas, as cobertas como um passe de mágica somem e vão para o quarto de visita, sem falar que  o mesmo é trancado a sete chaves.

 

As roupas íntimas penduradas nos banheiros, somem como um ninja no escuro, as garrafas de água encontram suas tampas e são alocadas no freezer,  e por último todos da família correm para tirar seus modelitos pessoais.

 

O filho corre para tirar o pijama e a camisa do “parmeira” que mal cabe no sujeito, o pai se desespera em tirar a bermuda rasgada com a camiseta do colégio santa cândida que mostra a metade da pança.

 

Ah! Não podemos esquecer, a rainha do lar! Sabe aquela dúvida cruel que toda mulher tem na hora de sair? Não existe, some como uma nevoa diante do vento.

 

Em poucos segundos tudo se renova, tudo fica sublime, a beleza, glamour e a elegância feminina se renova diante da situação.

 

Em fim, navegares estão aí os motivos dos curitibanos detestarem visitas surpresas.

 

Se forem visitar alguma família curitibana, avisem para serem recebidos com glamour e qualidade.

 

Abraços.

 

Professor Daniel Mota, possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná- UFPR. Especializado em Ética pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUC/PR, pós-graduando na UNESPAR Campus Apucarana, em Gestão de Empresas, e é funcionário da Secretária de Educação do Estado do Paraná.

 

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