Ziuj o deus do destino dos Apukás.


Na minha estada junto aos Apukás, percebi que existe uma classe de homens e mulheres muitos discretos que vivem nas sombras e acima de todos, são os membros da “Açitsuj” uma casta social que é formada por homens e mulheres considerados sagrados, são como deuses, divindades que vivem na floresta e nas copas das arvores, e se reúnem em seu templo sagrado o “Murof”.


A língua desta casta social, é uma das mais antigas, seus hábitos são dos primórdios da humanidade, sua escrita é formal e secreta, somente os iniciados conseguem decifrar ou se comunicar com os membros desta sociedade divina.


Os membros da “Açitsuj” são homens e mulheres muitos poderosos, que tem poder sobre sua vida, sobre seu destino e sobre suas ações. Confesso, que tenho muito receio do que esses sujeitos são capazes de fazer com seu destino e sua vida.


Uma vez que um silvícola se torna “Uer” no ritual do destino dos “Açitsuj”, esse moribundo jamais conseguirá voltar ao seu destino inicial, será levando ao ostracismo junto aos Apukás excluídos.


A casta dos “Açitsuj” tem uma hierarquia bem definida, com nomes diferentes e funções diferentes, porém, com a especialidade de interferir no destino dos mortais.


Os Apukás não tem muito contato com esses sujeitos, pois eles são discretos, salvo em situações conflitantes que tem que ser resolvida mediante a dadivas, e em oferendas para iniciar o ritual do destino ou para resolução de conflito.


Entre os membros da “Açitsuj”, existe uma hierarquia, que inicia com o membro com pouco poder o “Odagovda” e vai até o mais poderoso que o “Açitsuj ad Ortsinim”, este que por sua vez, só pode ser invocado em situações especiais ou por muitas dadivas.


Uma característica peculiar dos membros da “Açitsuj” é que todos possuem escravos, no qual organizam suas rotinas, os rituais, programam as datas dos rituais em um calendário pré-estabelecido ou na de existência de conflitos.


Os escravos da casta dos “Açitsuj”, não gostam de serem chamados de escravos, gostam de serem chamados de “Soiranoicnuf”, e percebi que são homens, mulheres, idosos e até crianças com idade inicial lunar de 182 luas cheias.

Na hierarquia do “Açitsuj”, os mais poderosos tem muitos “Soiranoicnuf”, são bem remunerados, vivem em local separados, não precisam caçar, pescar ou fazer qualquer atividade fora de suas funções.


Certa vez, um “Soiranoicnuf” informou que todos que fazem parte da “Açitsuj”, tem curandeiros especiais, proteção, transporte, acesso a Médicos Feiticeiros mais habilidosos, tem “Soiranoicnuf” para cuidar de seus filhos, de seus animais e de suas roupas especiais.


Os membros da “Açitsuj”, possuem os melhores guerreiros para sua proteção, possuem sábios para educar seus filhos, casas especiais e ainda ganham dadivas para viverem com suas famílias comendo das melhores caças e das melhores frutas.


Sobre as dádivas que recebem, ninguém sabe o volume ou a quantidade, porém, o volume das dádivas é relacionado com a habilidade ou cargo que ocupa na hierarquia “Açitsuj”.


Na hierarquia da “Açitsuj”, existe o “Odagovda” uma espécie de guardião, um guerreiro bem informado, culto, habilidoso com as palavras, conhece os segredos da natureza, domina a língua secreta dos “Açitsuj”, são ávidos por dadivas e tem a no nobre função proteger qualquer silvícola em situação de conflito, mediante oferendas e dadivas.


O guardião, “Odagovda” é o tradutor do “Uer” sujeito que vai falar com o “Ziuj” no ritual do destino que ocorre no templo “Murof”.


O nome do ritual para solução do conflito é “Otnemagluj”, é um ritual sagrado, dentro do templo em uma sala com pouca luz, nesta sala existe um “Soiranoicnuf” que faz todas as anotações das palavras sagradas ditas entre os membros da “Açitsuj”, essas anotações são importantes para lembrar das decisões tomadas pelo “Ziuj” referente o destino do “Uer”, nestas anotações contém tudo sobre o que levou o destino do moribundo “Uer”.


Outro fato interessante que não podemos esquecer, é que somente os iniciados nos rituais dos “Açitsuj”, tem acesso as informações sagradas ou podem compreender a língua secreta dos signatários da “Açitsuj”.


Outra figura importante na estrutura da “Açitsuj” é o “Rotomorp” um membro sagaz, inteligente e muito perigoso, que tem a função de iniciar um “Otireuqni” que é uma espécie de suplício para qualquer silvícola em situação de conflito.


O “Rotomorp” é guiado por “Sainulac” ou “Sedadrev”, e cabe ao ele iniciar esse ritual de separar o que é “Sainulac” ou “Sedadrev” mediante sua intuição de membro da “Açitsuj”. Sobre as habilidades do “Rotomorp”, dizem que são sábios, possuídos de um espirito de justiça, onde não procuram o bem que existe nos silvícolas, mas procuram o mal que eles produzem.


O mais assustador é que o “Rotomorp” em seu ritual de separar o que é “Sainulac” ou “Sedadrev”, não tem a preocupação de saber se o moribundo é inocente, mas tem o objetivo de convencer o “Ziuj”, que tal suplicante merece ser excluído do meio dos Apukás.


Após, esse ritual complexo do “Rotomorp”, inicia-se o suplício do moribundo, ou seja, inicia um ritual chamado “Ossecorp” que decidirá o destino de vida e morte diante do “Ziuj”.


O que assusta no “Rotomorp” é que ele tem o poder de decidir o que é verdadeiro ou falso em situações conflitantes, também dizem os anciões, que alguns “Serotomorp” que é o coletivo de “Rotomorp” perderam a sensibilidade com os

Apukás diante de suas responsabilidades.


Iniciado o rito do “Ossecorp”, o “Odagovda” e o “Rotomorp” começam a falar na língua da “Açitsuj”, ambos tentam convencer o “Ziuj”, sobre o destino do Apukás em questão.


É um ritual muito estranho, o “Odagovda” tenta de todas as formas de convencer o “Ziuj” e proteger o silvícola diante da fúria do “Rotomorp”.


Essa tentativa de proteção acontece mediante uso de palavras mágicas, em um diálogo entre o “Rotomorp” e o “Odagovda” na presença do “Ziuj”.


Neste ritual ambos usam roupas pretas com uma capa, que tem o objetivo de intimidar a todos presentes na sala sagrada.


Na realidade, os trajes que eles usam simbolizam o que eles são, seu poder, sua divindade e sua hierarquia diante de todos.


O “Odagovda” no ritual usa o “Aceb” um traje longo e totalmente preto, o “Rotomorp” usa um “Agot” com dois fios de tecidos na vertical sobre os ombros e um fio que faz uma circunferência sobre o abdômen, o “Ziuj” usa uma forma de capa “Agot” com fios que prendem sobre os ombros.


O local do ritual é bem guardado por muitos guerreiros, neste local sagrado podem entrar somente, o “Uer” que é o suplicante sobre a proteção do “Odagovda”, o “Rotomorp” que usará todas as suas palavras mágicas para levar ao ostracismo ao suplicante, o “Ziuj” que tem o poder de vida e morte, bem como um grupos anciões, os “Sodaruj” que e em muitos casos ajudam o “Ziuj” a definir o destino do “Uer”.


A sensação que os Apukás do exílio tem sobre a casta dos “Açitsuj” é muito estranha. Dizem que o mais importante são as dadivas oferecidas nos rituais, e não procuram fazer o que é certo, dizem que os Apukás sem dádivas estão condenados ao exílio e são despossuídos de esperança.


Segundo os anciões, a verdade não existe, e quando existe ela é acompanhada de dádivas, as leis não fazem mais sentido, os decretos e o cargos são mais importantes que as leis, os possuíres de dádivas tem determinado o futuro e o destino dos Apukás.


O que tenho visto e que os Apukás, são guerreiros livres, fortes, belos e organizados, porém presos a um sistema que valoriza o possuidor de dádivas e oferendas.


Texto inspirado na obra de Horace Miner In: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs) You and the others: Readings in Introductory Anthropology (Cambridge, Erlich) 1976, “Ritos corporais entre os Nacirema”.

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