Faça mais do que existir!

June 11, 2017

 

Na última semana, fiz uma simples pesquisa sobre a produção cinematográfica inglesa no ano de 2016, e deparei com um filme genial, simples, porém com um olhar, genuinamente humano para as relações pessoais no século XXI.

 

O filme é composto de uma linguagem simples, sem efeitos especiais, sem maquiagem exuberante, porém, é um filme que apresenta as dificuldades vivida por todos em uma sociedade moderna.

 

A genialidade dos produtores, a simplicidade do diretor, do roteiro nos leva a refletir sobre o drama de um homem de 70 anos, sem muitos recursos, doente, e cercado pela burocracia do estado moderno. Mas, diante das dificuldades, mostra-se solidário para com uma jovem mãe solteira que vive na periferia de Londres.

 

O filme tem o titulo: “I, Daniel Blake”, é uma película triste, que mostra a violência oriunda da omissão do estado na vida dos cidadãos, é um filme que mostra claramente a triste realidade, “quando perdemos a dignidade, perdemos tudo”.

 

O interessante nesta produção, é que o diretor assume a defesa dos mais vulneráveis socialmente, e nos alerta, para que possamos resgatar a perdida essência humana, a compaixão, o sentimento da solidariedade e a resistência, diante de tamanha violência social.

 

O roteiro do escritor e advogado Paul Laverty e a direção do filme sob o olhar de  Ken Loach, traz em minha memória, a história de um jovem italiano que viveu em minha cidade (Curitiba) entre os anos de 1926 até 1943.

 

O jovem franzino, de um olhar sereno, de uma voz carregada de solidariedade, de hábitos simples, de generosidade ímpar e que atendia pelo nome de “Giuseppe Calvi”, conhecido como "José Calvi", foi um sujeito, que marcou a vida de muita gente por onde passou, assim dizem os relatos mais verdadeiros carregados de emoção.

 

Trago a história deste jovem, para expressar que a humanidade não está perdida, que ao logo da história, não tivemos heróis, mas, jovens divinos dispostos a estender a mão, aos mais frágeis e sem esperança.

 

Não tenho como objetivo, escrever sobre a vida religiosa de “Giuseppe Calvi”, isso o já fazem, com maestria e competência, mas, quero compartilhar a humanidade proferida pelo jovem sacerdote no período que esteve entre nós, na sua divina missão de generosidade.

 

O espetacular na história do jovem Calvi, não é sua vida religiosa ao meu ver, porém, sua capacidade extraordinária de superação e dedicação ao seu semelhante diante de sua saúde debilitada.

 

Lendo os relatos sobre a vida de Giuseppe, fiquei impressionado como ele, superou muitas coisas, com uma divina simplicidade, dotada de sabedoria e coragem que falta para muitos nós, nos dias de hoje.

 

É interessante ressaltar, que os anos vivido por Giuseppe Calvi no Brasil, fez diferença para muitos, mesmo diante das dificuldades que ele enfrentava. Isso é tão verdadeiro que Giuseppe, tornou-se referência e fonte de esperança e bondade para com os seus.

 

Calvi, era assolado pela tuberculose, doença difícil de se tratar no século XX, vale lembrar, que a tuberculose é considerada uma doença socialmente determinada, pois sua ocorrência está diretamente associada à forma como se organizam os processos de produção e de reprodução social.

 

A reprodução da doença está diretamente relacionada ao modo de vida, e o trabalho do indivíduo, no caso de Calvi, fica evidente a origem de sua doença.

 

Acreditamos, que ela tenha se originado das condições de trabalho, das condições sanitárias dos indivíduos que ele propôs a ajudar com muito zelo e compaixão.

 

A nobreza da história de Giuseppe Calvi, associo a sua dedicação aos mais frágeis socialmente, e a sua disposição em amar ao próximo, sem distinção, sem condicionar seu ato de solidariedade a sua religião, mas, ao simples fato de ajudar o próximo de maneira divinamente humana e respeitosa.

 

Ele, dispunha de todas as oportunidades de retornar para a sua terra natal para tratar da doença, porém de forma contundente, recusou, pois sabia, que muitos de seus semelhantes necessitavam de sua ajuda.

 

Segundo relatos, ele não ficou agonizando diante da tuberculose que o assolava, não ficou recluso no seu quarto, se isolando dos outros pacientes com a mesma enfermidade. Pelo contrário, e sabemos muito bem disso,  que ele dispensou tratamento especial que sua posição como religioso lhe cabia. Preferiu ficar com os mais simples, preferiu compartilhar sua nobreza divina com os aflitos, optou em ajudar, ao invés de reclamar, se posicionou em minimizar o sofrimento humano com textos e palavras que confortassem as mentes cansadas e sem esperança.

 

Nos últimos dias, pelo que sabemos, não perdeu a esperança na humanidade, não perdeu a sua fé diante da enfermidade, não reclamou, somente agradeceu pela dadiva divina em servi ao próximo com amor e simplicidade.

 

Para concluir, permitam-me parafrasear as palavras do escritor Paul Laverty, no filme “I, Daniel Blake”: Giuseppe Calvi, “não era um homem pobre, ele possuía coisas, que o dinheiro não pode comprar”.

 

Que a vida e a generosidade de Giuseppe Calvi, não seja esquecida, em uma sociedade contemporânea, que emergem o individualismo, a fluidez e a efemeridade das relações.

 

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Giuseppe Calvi, conhecido no Brasil como José Calvi nasceu na Itália no início do século XX e em 1914 entrou no seminário em Asti. Em 29 de maio de 1926 foi ordenado padre e cinco meses depois chegou ao Brasil, iniciando os trabalhos de pároco na Igreja Nossa Senhora do Rosário e no santuário mariano de Nossa Senhora do Rocio (na época administrada pela Congregação do Oblatos de São José, os conhecidos Padres Josefinos). Logo após, segue para Curitiba para assumir a vice-direção do Abrigo de Menores da capital paranaense. Em abril de 1933 foi nomeado pároco da paróquia do Sagrado Coração de Jesus, no bairro da Água Verde. Em 1935 o padre Calvi foi internado no Sanatório São Sebastião, na cidade da Lapa, por apresentar sérios problemas de saúde e ali permaneceu, por oito anos, tratando-se e trabalhando com os enfermos. Com a saúde muito debilitada, José Calvi faleceu no dia 26 de setembro de 1943, sendo enterrado no Cemitério da Água Verde, na cidade de Curitiba.

 

Para saber mais sobre vida e obra de Giuseppe Calvi clique aqui.

 

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