O valor do/a professor/a e sua demonização!


O texto foi extraído da sentença dos autos do processo n° 201385001520 Juizado Especial Cível, da 1ª Vara Cível e Criminal de Tobias Barreto, Estado de Sergipe, julgado em 29/05/2014 pelo Sr. Juiz de Direito Eliezer Siqueira de Souza Junior.


É importante ressaltar, que o Juiz Eliezer não proferiu uma sentença, mas, fez uma apologia e a antropologia da história da educação, bem como denunciou a realidade e a desvalorização do Professor em nosso país.


O estimado Juiz expressa em sua sentença que: “Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados”.


E continua: “apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho”.


A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos.


Aos Professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem "águias" e não apenas "galinhas". Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.” (Paulo Freire)


O Professor é o indivíduo vocacionado a tirar outro indivíduo das trevas da ignorância, da escuridão (a lumno: sem luz), para as luzes do conhecimento, dignificando-o como pessoa que pensa e existe (cogito, ergo sum: penso, logo existo, na preciosa lição de Descartes).


O que temos no Brasil? Uma completa inversão deste valor, explicável se levarmos em conta que, no século passado, ficamos aproximadamente 40 anos em duas ditaduras que entenderam o valor da Educação como ferramenta de tirania e alienação, transformando professores em soldados de ideologias totalitaristas, perfilados em salas de aula em que sua disposição espacial dá toda esta diretriz: o professor em pé, discursando; os alumnos sentados, indefesos, recebendo toda carga do “regime”.


Vieram os períodos de democracia, e o que se fez? Demonizou-se a educação! Sim, pois eram alinhavadas com os regimes absolutistas, que tinham o “disparate” de ensinar nas aulas de Educação Moral e Cívica, Orientação para a Vida, Organização Social e Política do Brasil e afins que fazer greve era errado; que o indivíduo de bem deve se submeter, sem questionar à autoridade estatal; que quem questiona não é de boa índole.


É certo que o modelo educacional utilizado pelo Estado Novo e pela Ditadura Militar era tendencioso e unifacetado. Não havia espaço para diferenças. Tampouco para minorias. Mas o que se fez foi escantear aquele modelo educacional.


Este é o ponto! O modelo educacional brasileiro de outrora foi abandonado e, até agora, nenhum o sucedeu. É bem verdade que a quantidade de dinheiro aumentou, mas o investimento (não só financeiro) é péssimo. Ainda temos uma maioria esmagadora de centros educacionais no Brasil que remontam ao século XIX, insalubres, massacrantes e nada atrativos, conforme várias matérias jornalísticas despejam periodicamente nos meios de comunicação.


Quem sofre com isso? O país como todo, é verdade. Os alunos e pais de alunos, diretamente. Mas fico a pensar, também, naquele que nasce vocacionado para ensinar, que se prepara anos a fio para isso, e, quando chega o grande momento, depara-se com uma plateia desinteressada, ávida pelos últimos capítulos da novela ou pela fofoca da semana, menos com a regência verbal ou a equação de segundo grau, até porque não possui nenhuma ferramenta “atrativa” para combater a contracultura das massas.


A concorrência é desproporcional, mas houve uma época em que ser pego em sala de aula fazendo palavras-cruzadas ou trocando bilhetes com outros discentes era motivo para, no mínimo, fazer corar a face do aluno surpreendido.


O Professor era autoridade de fato e de direito na sala de aula. Era respeitado como tal, pois a sociedade depositava sobre seus ombros a expectativa de um futuro melhor para os mais mancebos. Possuía licença de cátedra, liberdade para escolher o método que houvesse por bem, para melhor alçar o espírito dos pupilos. Ensinar era um sacerdócio e uma recompensa. Hoje, parece um carma.


Vivemos dias de verdadeira “Crise de Autoridade” na educação brasileira. Crise esta causada pelo sucateamento retromencionado dos estamentos educacionais, onde a figura do Professor é relegada a um papel pouco expressivo na sociedade. Hoje, o professor é tido como uma pessoa que estudou muito e não chegou a lugar nenhum, quando não se diz coisa pior.


E ao exercer este “carma”, não tem o respeito dos discentes, que passam a questioná-lo sem nenhum embasamento lógico ou pedagógico, em puro exercício da “arte pela arte, crítica pela crítica”, causando profundas sequelas naqueles que deveriam ser os mais interessados em aprender.


No país que virou as costas para a Educação e que faz apologia ao hedonismo inconsequente, através de tantos expedientes alienantes, reverencio o verdadeiro herói nacional, que enfrenta todas as intempéries para exercer seu “múnus” com altivez de caráter e senso sacerdotal: o Professor.


As palavras do Excelentíssimo Sr. Juiz, retratam a realidade de nós Professores, e como somos tratados todos os dias pela sociedade e por governos corruptos, que veem a educação como custo e uma ameaça a sua gestão, e veem não como investimentos e uma esperança para dias melhores.


Nestes anos todos como Professor, tenho presenciado todos os dias, verdadeiros milagres feitos por colegas que amam o que fazem, e tais, fazem a diferença para muitos alunos e alunas abandonados por seus tutores e por parte das autoridades.


Os milagres, estão associados ao despertar da esperança, do sonhar, do amar, do desenvolver o intelecto, o altruísmo e da dignidade humana. E a assim mesmo, são tratados como ineficientes, doutrinadores e sem valor social, e são responsabilizados pelo fracasso intelectual de seus pupilos.


É inevitável associar esse tratamento, como o fruto da ignorância intelectual, do descaso de todos com a educação, e de políticas públicas equivocadas voltada para o mercado e não para a cidadania.


O maior desafio de nós professores é ensinar para quem não quer aprender, bem como, aprovar um/a aluno/a sem conhecimento para satisfazer as demandas das estatísticas para organismos internacionais, e o desejo das famílias ignaras.


Ao Excelentíssimo Sr. Juiz de Direito Eliezer Siqueira de Souza Junior, temos apenas que agradecer por sua apologia. Apologia essa, por uma educação onde a figura do Professor seja respeitada e valorizada para que tenhamos um país com mais dignidade e soberania, algo que tanto precisamos nos dias de hoje.


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