A Canção da Caminhada



Estava lutando, como tem feito todos os dias e lá dentro, dentro do rezo intenso; sua única espada era uma planta e sua arte era estudo, o caderno lhe servia de escudo e a caneta sua adaga.


Em sua afiada lâmina, não havia sangue de nitrogênio, água ou seiva de árvores, o sangue dos antigos que a violência dos homens habitou e derramou sobre a Mãe e derramou-se sobre ela; o sangue, aquele sangue, cada gota era traduzida em tinta e a voz que ouvia; nascia dentro e visitava teus olhos e os olhos semeavam olhares, olhares de coleta, coletavam amostras da vida e jamais fixaram-se em algum momento.


Um coração que é nômade; vive de coleta!


E também semeia; mas não contenta-se, com uma, apenas uma casa, apenas uma taça, apenas uma praça, apenas uma noite.


À quantas penas; se vôa, se vão os cantos de pássaros em uma, apenas uma gaiola?


Quando a Lua acende tua alma e os céus cobrem teus passos, teus atos tornam-se átomos, cantos, contos e à cada ponto trançado; trabalha mais que um lindo amuleto.


Tudo; para o poeta é mais profundo do que se apresenta e num dueto se forma mais que uma canção, dos anônimos, sempre inédita!


E dessa; que visita os anseios de quem deixa pegadas, nos corações de pedra, que passam unindo-se aos cantos de outros pássaros, a canção da caminhada.

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Autor: Rafael Ferreira Vieira, escritor, poeta, músico e rapper. Imagem : Alex Rocha