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A memória crítica, uma luta contra o fascismo e a ignorância

  • Foto do escritor: O Argonauta
    O Argonauta
  • 2 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Esta semana, encontrei um livreiro de São Paulo que estava visitando familiares em nossa cidade, Apucarana/PR.

A conversa fluiu de forma leve: falamos das dificuldades de vender livros em um país onde políticas públicas de educação, marcadas pela descontinuidade, perpetuam o analfabetismo funcional e a falta de apoio à formação de leitores. Mas nem tudo está perdido, pois alguns professores, verdadeiros heróis, conseguem furar essa bolha do determinismo social, ainda que o sistema falhe gravemente ao não fomentar uma leitura crítica de longo prazo.

Então, perguntei ao livreiro, de forma direta: “O que o senhor mais aprendeu vendendo livros todos esses anos?”

Ele parou, refletiu e respondeu: “O ignorante, o burro não lê, não compra livros e, por isso, não faz leitura crítica; é incapaz de associar a realidade à miséria, à pobreza e ao fascismo.” Foi uma verdade dura, que ecoou em mim como professor e livreiro por afinidade.

Essa fala imediatamente me remeteu ao gigante Ailton Krenak,  líder indígena crenaque, ambientalista, filósofo, poeta, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. Em sua visão de mundo, ele nos apresenta a ideia de memória crítica e critica a sociedade ocidental por fragmentar a memória como se fosse um produto sem afeto. Krenak defende uma memória ancestral, conectada à natureza, como força curativa contra o esquecimento. O desmemoriado não percebe absurdos, ignora juízos de valor e tolera ideologias degradantes como o fascismo e o nazismo.

Na minha percepção, a memória crítica é essencial justamente porque nos leva a ampliar o olhar para o passado de forma reflexiva e questionadora. Ela analisa não apenas o que aconteceu, mas como e por que certos fatos são lembrados ou esquecidos. Não se limita a guardar informações: busca interpretar os acontecimentos, identificar silenciamentos, compreender seus sentidos e reconhecer quem constrói as narrativas históricas.

As consequências dessa memória para os sujeitos são profundas: desenvolve a consciência histórica, permitindo que cada pessoa compreenda sua posição no tempo; fortalece a autonomia intelectual, ao incentivar o questionamento de versões oficiais e discursos prontos; contribui para o empoderamento social e político, ampliando a capacidade de reconhecer injustiças e dar voz a grupos historicamente silenciados; ajuda na construção de identidades mais conscientes e plurais; e atua como ferramenta de prevenção contra violências e autoritarismos, ao recordar de maneira responsável os erros do passado e sustentar atitudes que defendam a democracia e os direitos humanos.

Mas como nos apropriamos da memória crítica? Apropriamos-nos dela por meio do hábito de refletir sobre o passado e questionar as informações recebidas. Esse processo começa com a educação, quando aprendemos a analisar fontes, comparar versões de um mesmo fato e identificar interesses políticos, sociais ou culturais que moldam as narrativas. Desenvolve-se também pela leitura de diferentes perspectivas,  livros, relatos orais, filmes, documentos e produções culturais que ampliam o olhar e evitam interpretações únicas.

Outro elemento essencial é a experiência cotidiana: observar os acontecimentos atuais, relacioná-los ao passado e dialogar com outras pessoas estimula a formação de um pensamento mais analítico. Não tenho dúvidas de que a memória crítica exige questionamento constante; precisamos aprender a interpretar, contextualizar e compreender a história como construção humana. Ela surge da combinação entre estudo, diálogo, consciência histórica e disposição para pensar além das versões prontas.

Durante essa conversa com o livreiro, lembrei-me de textos da época da universidade, especialmente da Escola de Frankfurt. Adorno e Horkheimer, na Teoria Crítica, denunciam a “indústria cultural” como manipuladora da consciência, perpetuando dominação e alienação,  uma parente próxima do analfabetismo funcional que impede a crítica social. Essa escola combate o pensamento autoritário ao revelar como a razão instrumental iluminista, em vez de gerar emancipação, favoreceu totalitarismos como o nazismo e o stalinismo, transformando a cultura de massa em ferramenta de homogeneização que adormece a consciência crítica e sustenta burocracias opressivas.

Em Horkheimer, a teoria crítica busca despertar tensões sociais adormecidas, minar ideologias que reproduzem dominação e promover autonomia coletiva contra fascismos e capitalismos autoritários.

Infelizmente, o livreiro está certo ao afirmar: “O ignorante, o burro não lê, não compra livros e, por isso, não faz leitura crítica, incapaz de associar realidade à miséria, pobreza e fascismo.” Cabe a nós, portanto, continuar lutando contra essa ausência de memória crítica.


Prof. Daniel Mota


KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

HORKHEIMER, M. Teoria Crítica. São Paulo: Perspectiva, 1990.

 
 
 

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