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A Religião dos Apukás

A religião dos Apukás é sincretista e diversificada, sendo uma mistura única de politeísmo e, paradoxalmente, monoteísmo, revelando uma complexidade incrível. Cada tipo de Apuká possui sua própria religião, refletindo a singularidade e diversidade dessa comunidade. Neste relato, vou ressaltar apenas a diversidade religiosa e a religião dominante, pois entre eles há uma disputa acirrada pelas almas dos silvícolas.


Esses nativos levam muito a sério a vida religiosa, pois, sem a religião, muitos deles não conseguem viver, ficam alados e desnorteados sem uma divindade para venerarem. Muitos deles precisam da religião para serem boas pessoas, serem honestos e gentis, como dizem muitos deles! Isso é notório, principalmente na religião dominante dos Apukás, mas, nesta religião, tem um pequeno grupo de pessoas que praticam essa religião de uma forma sublime, tranquila e sem alardes. Essas pessoas são inspiradoras no tocante à vivência religiosa.


Eles acreditam que a religião é um elo de ligação com seu criador, esse elo foi construído através de revelação e seus dogmas foram relatados e guardados em um livro sagrado. Os Apukás precisaram reduzir a dimensão de seu criador para uma figura nativa, para compreender sua grandeza, eles necessitam realmente reduzir o criador para compreender a sua grandeza a dimensão desta entidade. Mas, esse ato de redução da divindade não é exclusivo da religião dominante entre os Apukás, outras vertentes religiosas adotam essa prática. Acredito que esteja realmente ligada à ideia de limitação física e cognitiva dos silvícolas.


Outra característica das religiões dos Apukás e eles precisam de um Xamã, que intermedia eles e as divindades, e precisam de revelação para guiar a comunidade, o Xamã é encarregado de fazer anotações dos feitos heróicos e das diretrizes do código de conduta para que os Apukás atinjam a plenitude humana em um lugar especial, ou seja, eles precisam seguir as palavras sagradas reunidas em um livro que para eles é sagrado, no qual determinará o destino do espírito dos Apukás.


No tocante à ideia de espírito, eles acreditam na dualidade entre matéria (corpo) e espírito (energia), e segundo a tradição, eles precisam abnegar o corpo para que o espírito possa chegar a um lugar sagrado, onde o silvícola possa desfrutar das melhores coisas para ele, coisas essas que ele abriu mão ou não teve acesso durante sua estadia na floresta. A abnegação é uma forma de purificação, um preparar para uma morada onde ele terá tudo que não teve ou não pôde aproveitar em sua vida física como silvícola.


Outra característica interessante é a ideia de solidariedade entre eles, uma ajuda mútua, o compartilhar e ajudar e sem nada em troca. A principal religião dos Apukás é centrada na figura de um herói, no qual tinham poderes e é o Filho do Grande Espírito da Floresta. Eles acreditam que essa entidade é o Filho de uma entidade superior, e creem que ele superou a morte e, após alguns dias, ressuscitou, deixando um legado para que todos o encontrem em um lugar onde a perfeição, a bondade e justiça sejam celebradas por toda eternidade.


Para alcançar essa eternidade, eles também acreditam em um livro sagrado, no qual é a palavra, e os ensinamentos obtidos pela revelação espiritual. Neste livro sagrado, há muitas coisas interessantes, como ensinamentos, histórias, princípios éticos e feitos heroicos, que ao longo do tempo são relembrados através dos rituais e celebrações em datas específicas. Eles acreditam em um Espírito Único, porém, essa entidade está dividida na forma de três Espíritos da Floresta, que têm a figura de um Espírito Pai, o Espírito Filho e um grande Espírito Puro.


O principal objeto desta religião entre os Apukás, deve-se à ideia de que eles não são perfeitos e para buscar essa perfeição, precisam seguir os ensinamentos contidos no livro sagrado, tudo isso para buscarem a salvação pela crença na fé no Grande Espírito, e não pelas obras. Entre esses silvícolas, celebram a morte sacrificial do Espírito do Filho, que ficou entre eles por 1584 luas, e essa morte é vista como o meio pelo qual os nativos podem se reconciliar com o Grande Espírito da Floresta.


Para se reconciliarem, eles precisam fazer adoração ao Grande Espírito da Floresta, através de orações e práticas morais e éticas. Os nativos adeptos desta variante religiosa, eles se reúnem regularmente em locais sagrados na floresta para cultuarem e compartilharem suas crenças, nestas reuniões reproduzem as odisseias do Espírito do Filho, como banhar-se em uma água com símbolo de um pacto, celebram também um compartilhar de alimentos e uma bebida sagrada, que representa o líquido vital do Espírito do Filho, no qual foi um sacrifício por todo nativo.


Eles enfatizam a importância do código de conduta que permeia as tradições e seguindo os ensinamentos do filho do grande Espírito da Floresta, buscando viver de acordo com princípios como amor, perdão e caridade. Muitos nativos veem como parte de sua missão compartilhar os valores e as boas práticas, difundindo a mensagem de e convidando outros a seguirem os ensinamentos do filho do grande Espírito da Floresta.


É importante informar que entre os nativos, existem Xamãs que não são bem intencionados, e muitas vezes, suas condutas pessoais estão dissonantes com os ensinamentos do Filho do Grande Espírito da Floresta. E ressaltamos que esses casos representam uma minoria dentro dos grupos de Xamãs. A grande maioria deles são praticantes, dedicados à crença, à ética e ao bem-estar de seus nativos. Infelizmente, em vários grupos e tradições espirituais, há nativos que se envolvem em práticas oportunistas, explorando a boa intenção dos silvícolas para ganho pessoal.


Alguns Xamãs desviam dádivas destinadas aos Apukás ou usam sua posição para benefício pessoal. Em alguns casos, existem Xamãs que pedem dádivas significativas aos nativos, prometendo coisas impossíveis. Essa prática pode ser vista como exploradora, bem como, alguns carismáticos Xamãs, podem abusar de sua influência, explorando as dádivas ou emocionalmente esses nativos. Há nativos que comercializam amuletos, relíquias ou objetos sagrados, prometendo proteção ou graças especiais, também, têm Xamãs que se envolvem em práticas de cura, se aproveitam da vulnerabilidade dos doentes, cobrando dádivas exorbitantes por serviços ou oferecendo falsas garantias de cura.


Não podemos esquecer que existem Xamãs que exploram psicologicamente e financeiramente seus membros. Algumas vezes, usam táticas manipuladoras para controlar as vidas dos nativos.


Concluímos que a religião dos Apukás se destaca pela sua natureza sincretista e diversificada, representando uma intricada combinação de elementos politeístas e, paradoxalmente, monoteístas. Cada subgrupo dentro dessa comunidade possui sua própria visão religiosa, refletindo a riqueza da diversidade cultural e espiritual entre os Apukás. Ao longo do relato, ficou evidente o comprometimento dos nativos com a vida religiosa, considerando-a como um pilar fundamental para o seu bem-estar.


A busca pela compreensão divina, expressa através da crença na revelação e na preservação dos dogmas em um livro sagrado, revela a profundidade da conexão entre a fé e a compreensão limitada dos silvícolas. A presença crucial dos Xamãs, atuando como mediadores entre os nativos e as divindades, destaca a importância da abnegação como meio de purificação espiritual.


A solidariedade e o compartilhamento entre os membros da comunidade são traços marcantes, demonstrando a coesão e o apoio mútuo dentro deste contexto religioso diversificado. A religião central dos Apukás, focada em um herói com poderes sobre-humanos, sugere uma mensagem inspiradora de superação da morte e ressurreição como legado, promovendo a celebração de valores como perfeição, bondade e justiça ao longo da eternidade.


No entanto, é crucial reconhecer a presença de Xamãs com más intenções, explorando a fé dos silvícolas para ganho pessoal. Embora esses casos representem uma minoria, é essencial discernir entre os praticantes dedicados e os oportunistas, destacando a importância da conscientização para preservar a integridade da comunidade e sua vivência espiritual.


Em última análise, a religião dos Apukás não apenas ilustra a complexidade do seu entendimento espiritual, mas também ressalta a importância de discernimento e consciência diante das práticas oportunistas que, infelizmente, podem surgir em meio à riqueza espiritual dessa comunidade.

 

Prof. Daniel Mota 


Texto inspirado na obra de Horace Miner In: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs) You and the others: Readings in Introductory Anthropology (Cambridge, Erlich) 1976, “Ritos corporais entre os Nacirema”.

 

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