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Aula de Vida: Lições Aprendidas na Escola da Desigualdade

Após nos conformarmos com a situação de morar em um porão, o próximo passo era a escola. Eu, particularmente, não era alfabetizado e estava em descompasso com a idade/série. Isso, sem contar que não havia nenhuma criança preta na minha sala de aula; todas eram caucasianas. Para corroborar com as minhas reflexões, o mais triste é que não tenho lembrança de professoras pretas naquela escola.


No primeiro dia de aula, foi um choque entrar em um mundo que não era o meu mundo, um universo no qual eu não conseguia me reconhecer ou me inserir.


Quando entrei na sala de aula, levei um susto, mas logo passou. Fui recebido por crianças incríveis e sem preconceito, pelo menos no primeiro momento. Nesta escola aprendi que crianças não nascem racistas; isso se desenvolve, e não tenho dúvidas, essa é uma regra.


Entre poucas lembranças que tenho daquela época, as que vêm à minha mente são de um colega que gerou uma grande decepção e de uma professora que reforçava a exclusão.


Vamos contar, neste primeiro momento, sobre a professora da turma, que fazia uma divisão proposital e covarde, algo evidente e que hoje seria considerado crime. Na sala de aula, as carteiras eram duplas, e você sentava com quem a professora escolhia; até aí tudo bem. No entanto, ela dividia a sala de aula em dois grupos: na primeira parte, ficavam as crianças boazinhas, limpas, educadas, inteligentes e com material completo; hoje chamo esse grupo de alunos da Curitiba Ocidental. Após a linha imaginária, que estava a um metro de distância do grupo da frente, ficava o outro grupo de crianças; esse grupo chamo de Curitiba Oriental.


Não vou entrar no mérito da competência da professora, porém, suas atitudes eram do modelo de educação da época. Ela estabelecia metas para todos que estavam no fundo: se as crianças da Curitiba Oriental se comportassem, viessem limpinhas, fizessem as lições e tivessem material completo, seriam promovidas e mudariam para a Curitiba Ocidental. Porém, isso nunca acontecia, pois era tudo determinado.


Houve uma certa vez um surto de piolhos; a "estimada" professora passava fazendo uma inspeção nas crianças do grupo da Curitiba Ocidental. Durante a inspeção piolhitária, elogiava os cabelos de algumas crianças, principalmente as de cabelos lisos e claros. Se algumas das crianças deste grupo tivesse piolhos, a professora era discreta e tratava com discrição.


Para as crianças da Curitiba Oriental, era muito diferente, o tratamento era desigual, sectarista; ela não fazia elogios, emitia juízo de valor sobre cabelos das crianças. Com uma caneta, inspecionava alguns cabelos, outras nem chegava perto, e se alguma criança tivesse piolhos, o fato era tratado como uma doença grave, sem discrição, com exageros, e a mesma fazia uma expressão de nojo, pois sua cara e expressões corporais denunciavam seu incômodo.


Neste dia, perguntei por que ela não tratava todos da mesma forma, por que ela não era carinhosa com os que mais precisavam? Por que ela não gostava das crianças da Curitiba Oriental? Quando fiz essas duas perguntas na inspeção piolhitária, ela, com uma expressão de espanto diante de uma criança petulante, disse que era impressão minha e não queria mais saber desse assunto.


Hoje, lembrando deste fato, consegui traçar um perfil deste tipo de pessoa que sempre sai pela tangente, é um tipo de gente que não encara suas vítimas de frente, se esconde em argumentos pífios e efêmeros, não fala o que pensa, fala o que os outros querem ouvir. Esse tipo de gente deixa o ambiente tenso, não harmônico, segregacionista e corrobora para o determinismo social, poda toda possibilidade de sonhos de uma criança.


Outra pessoa que tenho lembrança, além da professora, e como faz parte da minha narrativa, não vou dizer o nome dele, um colega no qual me proporcionou uma frustração, que foi muito didático para o resto da minha vida.

Esse colega era o filho "feio" da família; era assim que ele se referiu uma vez, uma criança frustrada com a síndrome do irmão mais novo. Seu aspecto físico era de uma criança normal, um garoto muito inteligente e criativo. Os pais eram bem de vida, tinham tudo que precisavam, amor, carinho, brinquedos, passavam as férias na praia, sítio, e ele andava com dinheiro para seus gastos como criança.


Ele sofria de estrabismo em um dos olhos, e eu percebia que isso o incomodava. Mas, como era criança, ele se adaptava e compensava essa dificuldade sendo uma pessoa sorridente, brincalhona e gostava de ostentar com os amigos.

Na realidade, ele podia ostentar, pois a família possuía bens e era bem de vida. Conhecia a família dele, tinha uma irmã linda, mais nova, uma jovem educada e encantadora, onde todos a paparicavam e a tratavam como uma princesa.


Certo dia, próximo da Páscoa, ele falou que eu ia ganhar um ovo de Páscoa, disse que era um ovo grande, e a sua mãe havia lembrado de mim. Fiquei feliz naquele momento, abracei ele, agradeci, brincamos de correr na escola e, para completar a minha alegria, naquele dia, o pai dele foi buscá-lo na escola e me deu uma carona. No meio do caminho, eles me convidaram para tomar café naquela tarde; fui, foi muito legal. Comemos bolo de cenoura, chineque, tomamos chocolate morno, pão com presunto, e assistimos um episódio do sítio do pica-pau amarelo; foi uma felicidade.


Após aquela tarde deliciosa e a maravilhosa notícia do ovo de chocolate na Páscoa, fui para casa com uma alegria imensa. Mas, nunca esqueci deste fato, pois alguns dias depois, aprendi que confiança é tudo.


Na quarta-feira na escola, último dia de aula antes do feriado prolongado, que emendava com a sexta-feira da Paixão de Cristo, perguntei sobre o meu ovo de Páscoa. Ele disse que não era para se preocupar, pois a mãe dele iria levar na minha casa e perguntou quantos irmãos eu tinha. Respondi que comigo éramos oito. Ele falou que todos nós íamos ter uma surpresa naquela Páscoa, mas disse que não era para contar para ninguém, senão iria estragar a surpresa.


Meu coração reforçou de esperança, felicidade e alegria, pois nunca minha família tinha ganhado ovos

de chocolates. No máximo, havíamos ganho um bombom, e dos mais baratinhos. Aquela promessa encheu minha alma de alegria e felicidade. Fiquei com uma imensa vontade de falar para minha mãe, para vê-la sorrir, mas me contive para não estragar a surpresa.


Naquela época, passávamos por muita dificuldade e estávamos abaixo da linha da pobreza. Qualquer coisa que ganhávamos era motivo de felicidade. Após as palavras ditas por aquele colega, alimentei o meu imaginário, imaginei como seria a surpresa, fiquei com meus devaneios e expectativas.


Era sábado de aleluia, fomos dormir. Éramos dez pessoas em 18m², mal conseguia, pois na escola todos falaram que o coelhinho trazia os chocolates na madrugada. Tentei ficar acordado, mas não consegui. Na manhã seguinte de Páscoa, fui o primeiro a acordar, fui procurar os ovos prometidos pelo colega da escola. Comecei a acordar todos, e minha mãe, uma mulher simples, me disse: "O coelhinho não visita pessoas sem dinheiro." Respondi que não, mãe, que isso não é verdade; e disse para ela, a família daquele menino iria nos trazer ovos de chocolate e iria fazer uma surpresa para todos nós. Minha mãe, com uma cara cética, disse: "Meu amor, não coloca expectativas em seu coração."


Naquele dia, a Páscoa foi como qualquer outro domingo. Éramos imigrantes do norte do Brasil, e fazer amizades em Curitiba só era possível depois de muito tempo, se os curitibanos dessem bom dia para você. Essa era a senha para um sorriso e promover você para o patamar de colega.


No dia seguinte, segunda-feira, foi um dia tenso, triste, decepcionado e amargurado. Todas as crianças trouxeram bombons de chocolates, alguns cacos de chocolates que ganharam no domingo, contando como foi seu dia, as festas em família e a celebração da ressurreição de Jesus.


A professora começou a perguntar para algumas crianças da Curitiba Ocidental como havia sido o domingo de Páscoa; elas falavam das comilanças, das conversas em família, dos ovos de Páscoa de chocolates, dos ovos de galinhas recheados de amendoim fechados com papel de seda, das caixas de bombons que ganharam da tia, do padrinho e dos familiares.


A professora deu uma olhadinha no pessoal da Curitiba Oriental e não perguntou nada, um silencio fúnebre.

Naquele momento, tive a sensação de que nós éramos invisíveis, que nossas vidas não faziam sentido para aquela professora e para aquela escola. E é essa a impressão que tenho até hoje, tenho a noção de que as crianças da Curitiba Oriental, naquela escola, estavam condenadas ao condicionamento, ao ostracismo e ao determinismo social.


Éramos crianças limitadas cognitivamente, pobres e podadas em seus sonhos e criatividade. Já as crianças da Curitiba Ocidental eram belas, determinadas ao sucesso, bem cuidadas e bem alimentadas. Isso porque todas eram crianças caucasianas, o que fazia a diferença em perspectivas e possibilidades.


Neste momento, preciso explicar por que dos nomes dos grupos Curitiba Ocidental e Oriental; essa alusão foi associada a uma aula que a professora havia dado sobre a cidade de seus familiares, Berlim, que tinha sido dividida depois da segunda guerra mundial. Como morávamos no Bairro do Xaxim, divisa com o Bairro do Boqueirão, que era um grande reduto de colonos alemães, era inevitável não associar a divisão da sala de aula.


Continua.....


Prof. Daniel Mota

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Prof. Daniel Mota, possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (1996). Especialização em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR) Campus Curitiba. Pós-graduando na UNESPAR - Universidade Estadual do Paraná, Campus de Apucarana FECEA-PR. Professor com 30 anos de experiência na área da educação, em sala de aula com desenvolvimento de projetos educacionais nas áreas de Filosofia, História e Sociologia bem como consultoria educacional e financeira. Trabalhou por 25 anos no mercado financeiro, é funcionário da rede pública de ensino do Estado do Paraná, proprietário, editor do site Os Argonautas Mídia Alternativa, fundador e proprietário do projeto pela democratização da leitura, Sebo Apucarana.

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