Como o dólar se tornou uma moeda global
- O Argonauta

- há 4 dias
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Como professor, filósofo e historiador, também me considero um bom opinólogo. Por isso, proponho aqui uma reflexão direta e sem mistificações sobre como o dólar americano se consolidou como a principal moeda do sistema econômico global.
Bem, vamos lá! Por décadas, o dólar ocupou uma posição absolutamente singular e bem privilegiada em relação as outras moedas nacionais, ele não se limitou a ser um meio de troca interno, mas transformou-se em um verdadeiro instrumento de poder geopolítico e força militar. Entender essa trajetória exige olhar além da economia tradicional e compreender os arranjos políticos, militares e institucionais que sustentaram essa hegemonia.
Antes de tudo, é fundamental esclarecer um ponto frequentemente ignorado no debate público: o dólar é uma moeda fiduciária. Mas o que isso significa? Significa que o dólar não possui lastro em bens físicos, como ouro ou petróleo. Seu valor se baseia na confiança. Em outras palavras, ele vale porque as pessoas, os mercados e os Estados acreditam que ele vale.
A própria palavra “fiduciária” ajuda a entender o conceito. Ela vem do latim fiduciarius, derivada de fidúcia, que significa confiança, fé ou crédito, e de fidere, confiar ou acreditar. Portanto, algo fiduciário existe não por valor próprio, mas porque há confiança coletiva e acordos em seu uso e aceitação.
Essa característica se torna central a partir de 1971, quando os Estados Unidos abandonam o padrão-ouro. A partir desse momento, o dólar deixa de ter qualquer lastro em ativos físicos. Ele passa a ser sustentado exclusivamente pela confiança no Estado americano, pela força de sua economia, poderio militar e, sobretudo, pela estrutura internacional que exige seu uso em setores estratégicos do comércio global.
Em termos simples, o dólar vale porque o mundo acredita que ele vale, por acordos, força militar, e porque o sistema internacional foi organizado para exigir sua utilização.
Um dos pilares dessa organização é o sistema financeiro internacional, especialmente o SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), uma rede global que conecta milhares de instituições financeiras e facilita transações internacionais. Embora não emita moeda, o SWIFT reforça o papel central do dólar ao torná-lo padrão nas grandes operações financeiras globais.
É nesse contexto que surge o chamado petrodólar, um mecanismo geopolítico fundamental para consolidar a posição global da moeda americana. Após o fim do padrão-ouro, os Estados Unidos enfrentaram um desafio: como manter a demanda mundial por uma moeda sem lastro físico? A resposta não foi apenas econômica, mas profundamente política, militar e estratégica.
Em 1945, os Estados Unidos firmaram um acordo histórico com a Arábia Saudita. O encontro ocorreu entre o rei Abdulaziz bin Abdul Rahman Al Saud (Ibn Saud), fundador da Arábia Saudita, e o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, a bordo do USS Quincy. A base da parceria foi clara: proteção militar americana em troca de acesso preferencial ao petróleo saudita.
Décadas depois, especialmente a partir dos anos 1970, esse arranjo foi ampliado. A Arábia Saudita e, posteriormente, outros países da OPEP estabeleceram que o petróleo, a commodity mais estratégica da economia moderna, seria comercializado exclusivamente e obrigatoriamente em dólares americanos. Em contrapartida, os Estados Unidos garantiriam apoio militar, político e diplomático.
O resultado foi a criação de um lastro indireto para o dólar. Não se tratava de um lastro físico em petróleo, mas de uma obrigação sistêmica: qualquer país que quisesse comprar energia precisaria, antes, obter dólares. Isso forçou governos ao redor do mundo a manter reservas em dólar, utilizar a moeda em suas transações internacionais e, consequentemente, sustentar a centralidade do sistema financeiro americano.
Esse mecanismo garantiu aos Estados Unidos o chamado “privilégio exorbitante”: a capacidade de emitir moeda, financiar déficits elevados e exercer influência econômica e política global sem enfrentar, de imediato, as restrições que se impõem a outros países.
Assim, o dólar não se tornou uma moeda global por acaso ou apenas por eficiência econômica. Sua hegemonia foi construída por meio de acordos estratégicos, instituições financeiras internacionais e, sobretudo, pelo entrelaçamento entre poder econômico, militar e político. Entender esse processo é essencial para compreender o funcionamento do mundo contemporâneo.
Prof. Daniel Mota
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Prof. Daniel Mota possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (1996), especialização em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR) Campus Curitiba e é pós-graduando na UNESPAR - Universidade Estadual do Paraná, Campus de Apucarana. Com 33 anos de experiência na área da educação, trabalhou por 25 anos no mercado financeiro e é funcionário da rede pública de ensino do Estado do Paraná. Além disso, é proprietário e editor do site Os Argonautas Mídia Alternativa e fundador e proprietário do projeto pela democratização da leitura, Sebo Apucarana.

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