Disarstar e o grito "Siamo tutti Antifa"
- 1 de mai.
- 6 min de leitura

Nesta semana, vendo um post na minha conta do Instagram, o algoritmo me mandou um vídeo do Disarstar, onde ele dita o ritmo e a motivação para combater o fascismo. Viver o vídeo me trouxe lembranças do que é o fascismo e do que seus adeptos são capazes de fazer. Neste sentido, não é preciso saber ler para entender que certos desenhos na parede são, na verdade, gritos; eles aparecem no concreto das metrópoles como hieróglifos modernos, traçados com a urgência de quem tem pressa em dizer que ainda está aqui.
Apresentamos, então, o mais onipresente deles: o círculo das bandeiras, uma geometria tão simples quanto cortante, que parece ignorar as fronteiras dos mapas para falar uma língua que o asfalto do mundo inteiro já decorou. Neste sentido, o olhar pousa primeiro nas duas bandeiras sobrepostas, eternamente inclinadas para a esquerda, como se estivessem sendo sopradas por um vento que vem do futuro. Há ali um pacto visual silencioso: a vermelha carrega o peso das fábricas e do suor, a memória das lutas operárias por dignidade; a preta, logo ao lado, traz o vácuo da liberdade absoluta, o fôlego anarquista que não admite cercas nem mestres. Elas não estão juntas por acaso; estão ali para dizer que, diante do abismo, as mãos se apertam mesmo quando os livros divergem.
Ao redor delas, um círculo fecha a sentença. Ele não é apenas uma moldura, mas um símbolo de unidade. No mundo dos símbolos políticos, o círculo é o escudo e a proteção, a ideia de que a resistência não tem um ponto final, mas um ciclo que se renova a cada geração. Quando as bandeiras saem do círculo, elas são apenas ideologias; dentro dele, elas se transformam em ação defensiva, um cordão de isolamento contra o avanço do que consideram intolerável.
Na minha jornada, sempre cruzei caminhos e esquinas onde o alfabeto da resistência muda de forma, mas mantém a mesma gramática. Surgem as três setas paralelas, apontadas para baixo como raios que tentam atingir o solo da desigualdade. É um símbolo matemático em sua precisão, criado para anular as forças que oprimem. As setas são o movimento contínuo, a linha reta que não desvia do objetivo. Elas lembram que o antifascismo não é uma espera passiva, mas uma força vetorial que empurra o ódio para fora do espaço público.
E há, ainda, as figuras que surgem das sombras, como o gato preto de pelos eriçados e costas arqueadas. Ele não é um animal doméstico; é o símbolo da autodefesa e da agilidade de quem sabe que o perigo espreita em cada esquina. O gato não ataca sem motivo, mas se defende com garras expostas quando encurralado. É a metáfora visual da sabotagem das engrenagens da opressão, o aviso de que o sistema pode ser interrompido por quem conhece os seus becos escuros.
Essas marcas nos muros não são apenas tinta; são lembretes de que a história é feita de símbolos que sobrevivem aos governos e às décadas. Ver as duas bandeiras ou as três setas em um poste é entender que existe uma vigília constante. É uma estética que não busca a beleza, mas a clareza. São ícones que, no meio do cinza das cidades, funcionam como faróis para uns e como avisos para outros, mantendo viva a memória de que a liberdade é um desenho que precisa ser refeito todos os dias, em cada parede do mundo.
Após o post, lembrei da minha jornada como estudante de filosofia e me prontifiquei a escutar esse rapper alemão. Com o fone de ouvido, a batida seca e as rimas cortantes de Disarstar ditavam o ritmo do meu pensamento. O rapper alemão, com sua voz que carrega o peso das ruas de Hamburgo, gritava sobre resistência e as falhas do sistema. Suas letras não são apenas música; são o eco de uma juventude mundial que se recusa a baixar a cabeça para a tirania e a violência.
No vídeo, em letras garrafais, no centro de tudo: "TODOS SOMOS ANTIFASCISTAS". Logo acima, o italiano dos antigos operários: "Siamo tutti Antifascisti". E no rodapé, a síntese de tudo: "Siamo tutti #Antifa!".
Fiquei ali, em silêncio, e minha mente viajou para longe do asfalto do centro. Voltei para o Boqueirão, na periferia de Curitiba, onde cresci. Foi lá, entre as ruas que a cidade "modelo" muitas vezes prefere não mostrar, que meus olhos começaram a se abrir. Como professor e eterno estudante de filosofia na Universidade Federal do Paraná, aquele tempo de estudo e de vida me clareou a visão.
A Filosofia me deu os conceitos, mas o Boqueirão me deu a realidade. Entendi, finalmente, que a miséria não é um acidente de percurso e que a violência não nasce do nada. O racismo que presenciamos até hoje não é um "mal-entendido", mas uma ferramenta de controle, uma engrenagem que mantém o privilégio de poucos sobre o suor de muitos. Percebi que o fascismo não é apenas um regime político do século passado; é a sombra que cresce toda vez que o sistema precisa usar o ódio para justificar a desigualdade.
Dizem que os antifascistas são radicais. Mas, como professor, eu me pergunto: o que é mais radical? Defender a dignidade de quem tentam apagar ou aceitar passivamente as estruturas que geram fome e exclusão?
A história nos ensina que, sob o fascismo, o sol é seletivo. O que os fascistas são capazes de fazer não começa com tanques nas ruas; começa com o sequestro das palavras. Primeiro, eles esvaziam o significado de "liberdade" e "pátria", até que essas palavras caibam apenas no bolso deles. O fascismo é capaz de transformar o seu vizinho de parede em um vigilante. Ele convence o cidadão comum de que a miséria dele não é culpa de um sistema desigual, mas sim daquele "outro": o imigrante, o negro, o artista, o professor, o estudante que ousa pensar. Eles criam um inimigo como quem cria um alvo no centro de uma praça, e depois dão a arma e a autorização moral para que qualquer um dispare. A desumanização é o seu primeiro grande feito: antes de agredir o corpo, eles apagam a alma.
Nas mãos do fascismo, a verdade torna-se um estorvo. Eles são capazes de incendiar bibliotecas, fechar jornais e substituir a ciência por mitos convenientes. Criam uma realidade paralela onde o líder é infalível e a violência é celebrada como uma forma de "limpeza". É uma máquina que mói a inteligência para produzir obediência. Eles transformam o medo em combustível, fazendo com que as pessoas prefiram a segurança das correntes à incerteza da liberdade.
E quando ganham o controle das engrenagens do Estado, a barbárie ganha escala industrial. A história já nos mostrou, com as cicatrizes ainda abertas da Europa do século XX, que o fascismo é capaz de transformar a tecnologia em ferramenta de extermínio. Eles criam burocracias para a morte, onde pessoas viram números em listas de transporte e cinzas em chaminés. Não há limite para a crueldade quando ela é alimentada pela crença de que algumas vidas valem menos que outras.
O fascismo é capaz de estilhaçar famílias, silenciar a arte e fazer com que o medo seja o único sentimento compartilhado em uma mesa de jantar. Ele glorifica o militarismo não para proteger, mas para intimidar. É o culto à força bruta sobre a razão, o soco sobre o argumento, o coturno sobre a flor.
Ao olhar para trás, percebemos que o maior poder do fascismo não é a sua força militar, mas a sua capacidade de seduzir os moderados para o silêncio. Eles são capazes de fazer com que pessoas boas olhem para o lado enquanto o horror acontece na esquina vizinha. E é por isso que, quando entendemos o porquê da violência e do racismo estrutural, percebemos que o fascismo não é apenas um fato histórico; é uma sombra que espera a nossa distração para voltar a agir.
Por isso, o grito de resistência não é um exagero. É o reconhecimento de que, se dermos a mão para o autoritarismo, ele não vai querer apenas um aperto; ele vai querer o nosso silêncio, o nosso pensamento e, se for preciso, o nosso fim, o vídeo de Disarstar e o grito de "Siamo tutti Antifa" atravessam fronteiras porque a dor da opressão também atravessa. Ela fala alemão nas rimas do Disarstar, fala italiano nas barricadas da história e fala o português das nossas periferias curitibanas. Somos todos antifascistas porque, se você entende o porquê da miséria, do preconceito e do que os fascistas são capazes, não existe mais lugar para a neutralidade.
Eu não estava na Praça da Sé em 34, nem nas barricadas europeias. Mas estou aqui hoje, diante do meu computador e dos meus livros de filosofia, com a experiência da periferia no sangue e a voz de quem educa para libertar. A história está andando. E enquanto houver quem use o medo para governar, nós seremos a barreira. Porque, no fundo, lutar contra o fascismo é, simplesmente, lutar pelo direito de todos existirem sem medo.
Siamo tutti Antifa.
Prof. Daniel Mota

Comentários