O Homem Medíocre e a Ética da Ascensão
- O Argonauta

- há 6 dias
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Nas aulas de filosofia com meu velho amigo e orientador, Professor Cassiano Cordi, no curso de Filosofia da UFPR, sempre fazíamos reflexões. Uma delas partiu de um livro que indiquei a ele, pois ele desconhecia um dos maiores filósofos argentinos: o multicultural José Ingenieros. Trata-se de um homem com uma biografia admirável e, mais que isso, uma humanidade e um senso ético aos moldes da Ética a Nicômaco de Aristóteles e do imperativo categórico de Kant. O livro é uma raridade que todos, nestes tempos de fake news, deveriam ter em suas cabeceiras, bem como os oportunistas de plantão que fazem de tudo para ter likes.
Em uma das nossas conversas, falávamos sobre a obra do "Bardo de Avon", título honorífico mais famoso de William Shakespeare (1564–1616). Nossa reflexão girava em torno de uma citação muito difundida e frequentemente atribuída a ele: "Quem sobe se arrastando, perde na indecência do gesto o direito às alturas".
Na época, disse a ele que corroborava com essa premissa. Contudo, ao ler a obra maravilhosa de José Ingenieros, O Homem Medíocre, descobri por acaso que a frase não pertencia ao "Bardo de Avon". Pude, então, mostrar a ele de forma categórica a passagem que desconstruía essa citação atrelada a Shakespeare.
Disse, naquela ocasião, que o termo é uma combinação de história e reverência poética no vasto oceano da literatura moral, a qual encontramos muitas vezes ao acaso. É o caso dessa sentença que há muito ecoa em portos literários: "Aquele que sobe se arrastando, perde na indecência do gesto o direito às alturas". No entanto, como aluno e leitor voraz na época da faculdade, a bússola da precisão apontou-me para outro quadrante. O autor desse pensamento não habitava a Inglaterra elizabetana do Bardo, mas sim as margens do Prata. Trata-se, como disse anteriormente, do filósofo José Ingenieros em sua obra-prima de 1913.
Mergulhar nas páginas de Ingenieros é enfrentar uma tempestade de lucidez. Ele não escreve para os conformados, mas para aqueles que levam no peito o que chama de "áscua sagrada": o idealismo, a paixão ou a centelha interior que impulsiona grandes ações na busca pela perfeição.
O filósofo argentino, em sua obra, nos apresenta diversos capítulos, mas um em especial, dedicado à "Moral dos Caracteres" (Capítulo IV – Os Caracteres Medíocres), confronta-nos com uma verdade tão antiga quanto as estrelas, mas raramente praticada: a forma como subimos define o valor do lugar onde chegaremos. Isso é um grande paradoxo, pois a ascensão não é um fim que justifica qualquer meio. Ingenieros diz, entre seus parágrafos, que existe uma estética na ética. Aquele que, para alcançar o topo, escolhe o caminho da subserviência, da adulação e do "rastejo", acaba por contaminar a própria vitória.
No prisma do autor, quem se resigna a comportar-se como verme renuncia, por um vício de origem, à capacidade de contemplar o sol de frente. A "indecência do gesto", esse movimento de curvar a espinha para ganhar o favor dos poderosos, é, na verdade, uma queda disfarçada de subida.
A confusão que empresta ao Bardo de Avon a autoria desta frase talvez nasça do drama quase shakespeariano contido na metáfora. Enquanto Shakespeare explorava a tragédia da ambição que corrói impérios em personagens como Macbeth, Ingenieros foca na tragédia da mediocridade que corrói o indivíduo. Ambas as vozes, embora separadas por séculos e oceanos, concordam que uma coroa conquistada na lama nunca brilhará como aquela banhada pela luz da honra.
E, como argonautas que somos, em busca de um Velo de Ouro que é a nossa própria integridade, a leitura de Ingenieros serve-nos de farol. Ele ensina-nos que o horizonte só é verdadeiramente vasto para quem mantém os olhos limpos e as mãos sem manchas.
Afinal, de que serve conquistar o cume se, ao chegarmos lá, já não temos ombros capazes de sustentar o peso da própria glória?
Nestes tempos sombrios, escalar desafios com dignidade é o que nos mantém de pé, longe do rastro silencioso e indecente daqueles que se esqueceram de como caminhar eretos.
Prof. Daniel Mota
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Prof. Daniel Mota é graduado em Filosofia pela UFPR (1996), especialista pela PUC/PR e pós-graduando pela UNESPAR (Campus Apucarana). Com 33 anos de experiência na educação e 25 no mercado financeiro, atua na rede pública de ensino do Estado do Paraná. É editor do portal Os Argonautas Mídia Alternativa e fundador do projeto de democratização da leitura Sebo Apucarana.
INGENIEROS, José. O Homem Medíocre (El Hombre Mediocre, 1913); tradução de Terumi Bonnet Villalba. Editora Chain: Curitiba, 2016.

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