O Paranismo : Identidade, História e Estética
- O Argonauta

- há 7 dias
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Em setembro de 2025, fui para Curitiba comemorar o aniversário do meu filho. Acordei mais cedo e fui tirar algumas fotos do prédio da UFPR, campus Santos Andrade, que me traz memórias da minha passagem pela universidade mais antiga do Brasil, orgulho da minha formação, nesta distinta e formidável instituição.
Enquanto tirava as fotos, deparei-me com um mural maravilhoso do poeta e escritor que me inspirou a estudar Filosofia, o mural fica na esquina da Rua XV de Novembro com a Travessa Presidente Faria, que abriga a Estação Tubo Central. Esse impressionante mural está no Edifício Marechal, que tem frente para a Avenida Marechal Deodoro, estampando em grande escala o rosto do escritor e poeta Paulo Leminski.
O mural, grafitado pelo artista e muralista Fernando Ferlin, mais conhecido como Gardpam, trouxe-me boas lembranças das minhas peregrinações pelas vielas culturais de Curitiba. Nessa verdadeira odisseia cultural, recordei-me das minhas aulas sobre a Teoria Crítica, desenvolvida pelos pensadores da Escola de Frankfurt a partir da década de 1920, que analisou a arte como um espaço de tensão entre emancipação e dominação social. Em uma sociedade capitalista marcada pela produção em massa, a cultura passou a ser tratada como mercadoria, fenômeno que Adorno e Horkheimer denominaram de indústria cultural. Nesse sentido, vejo uma forma de resiliência no movimento artístico paranaense nos pioneiros e vanguardistas culturais do Paraná.

Esse movimento ficou conhecido como Paranismo, um movimento cultural, artístico e intelectual que floresceu no Paraná nas primeiras décadas do século XX, alcançando seu apogeu na década de 1920. Inserido no contexto da Primeira República (1889–1930), surgiu como uma resposta à necessidade de forjar uma identidade regional sólida para o estado, que buscava afirmar sua autonomia política e cultural em relação a São Paulo e ao cenário nacional.
Influenciado pelo Romantismo tardio e pelo Simbolismo, mas dialogando com traços do Art Déco, movimento artístico e arquitetônico que se desenvolveu principalmente entre as décadas de 1920 e 1930, tendo como marco simbólico a Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, realizada em Paris, em 1925, o Paranismo não foi apenas uma tendência estética espontânea, mas um projeto deliberado de “invenção de tradições”. Intelectuais e artistas paranaenses uniram-se para criar um imaginário coletivo que diferenciasse o paranaense, exaltando a geografia, a flora, a história local e as raízes desse mosaico cultural.
Acreditamos que a grande inovação do Paranismo foi a sistematização, valorização e exaltação dos símbolos regionais. A araucária (Araucaria angustifolia) foi elevada à categoria de símbolo máximo, representando a verticalidade, a resistência e a conexão com a terra.
Um aspecto interessante é que esse movimento foi além da simples representação paisagística: propôs a estilização geométrica dos elementos do pinheiro. O pinhão e a grimpa (ramo do pinheiro) tornaram-se motivos ornamentais aplicados à arquitetura, às calçadas (petit-pavé), ao mobiliário e ao design gráfico, criando uma linguagem visual única e presente no cotidiano urbano, especialmente em Curitiba.
Entre os protagonistas e obras que representam esse movimento, destacamos algumas personalidades que iniciaram o Paranismo de forma apaixonada e deram vida à cultura paranaense.
O primeiro deles é João Zanin Turin, conhecido por João Turin, (1878–1949), um dos mais entusiastas e considerado o mestre da escultura paranista. Após retornar da Europa, Turin dedicou-se a criar uma arte com “alma local”. Suas obras monumentalizam a fauna, especialmente onças e felinos, e o indígena, mas é na criação de baixos-relevos e capitéis com motivos de araucária e pinhão que ele define a arquitetura do movimento. Obras como Luar do Sertão e seus projetos para monumentos públicos são fundamentais.
Outro ícone, é Frederico Godofredo Lange, mais conhecido por Frederico Lange de Morretes (1892–1954), figura central e grande teórico do movimento. Foi ele quem publicou, em 1927, na revista Illustração Paranaense, o manifesto que definiu as bases do Paranismo. Artista plástico e cientista (malacologista), Lange defendia que a arte paranaense deveria nascer da estilização da natureza local. Sua obra transita entre a pintura de paisagens e estudos científicos de design baseados na geometria do pinhão.
Nesse retrato do movimento, não podemos esquecer João Zaco Paraná (Jan Zak, Brzezany) (1884–1961), escultor de formação clássica, cujas obras possuem forte carga realista e etnográfica. É o autor do icônico monumento O Semeador (Praça Eufrásio Correia), e a escultura Amor Materno de Zaco Paraná, réplica exposta no Jardim Botânico em Curitiba, seus trabalhos exaltam o trabalho, a imigração e a fertilidade da terra roxa paranaense, temas caros ao discurso de progresso do período.
E, não podemos esquecer e destacar o norueguês radicado em Curitiba, Alfred Emil Andersen, conhecido como Alfredo Andersen (1860–1935). Embora cronologicamente anterior à consolidação teórica do movimento, é reconhecido como o “pai da pintura paranaense”. Norueguês radicado em Curitiba, formou a geração de artistas paranistas, incluindo Lange e Turin. Suas paisagens e cenas de gênero validaram o cenário local como tema digno de arte. Para quem deseja conhecer seu legado, o Museu Casa Alfredo Andersen (MCAA), localizado na Rua Mateus Leme, em Curitiba, abriga cerca de 400 obras, incluindo autorretratos, retratos de figuras locais, cenas do cotidiano e paisagens que misturam romantismo, realismo e impressionismo.
E por fim, incluímos também nesta lista um artista que aprendi a amar por sua identidade artística ímpar: Poty Lazzarotto, com o nome de batismo Napoleon Potyguara Lazzarotto (1924–1998), foi um dos mais importantes artistas plásticos do Paraná e do Brasil. Nascido em Curitiba, destacou-se como gravador, ilustrador e muralista, deixando uma obra profundamente ligada à história, à cultura e ao povo brasileiro.
Poty ficou conhecido por seus murais em painéis de concreto, azulejo e metal, nos quais retratou temas sociais, históricos e populares, com forte influência do expressionismo e do modernismo. Suas obras estão presentes em espaços públicos, tornando a arte acessível ao cotidiano das cidades. Seu trabalho é marcado pelo compromisso com a memória, a identidade cultural e a crítica social, consolidando Poty Lazzarotto como um dos grandes nomes da arte brasileira do século XX.

Para finalizar esse post, o movimento Paranismo deixou marcas profundas na paisagem urbana de Curitiba. A aplicação dos motivos paranistas, pinhas, grimpas e lambrequim estilizados, pode ser observada em grades de ferro, frisos de prédios históricos, nas fachadas das casas e, notavelmente, nos desenhos das calçadas em pedra portuguesa. Esse esforço de integrar arte e vida cotidiana antecipou discussões modernas sobre design e identidade visual urbana.
Prof. Daniel Mota
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Prof. Daniel Mota possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (1996), especialização em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR) Campus Curitiba e é pós-graduando na UNESPAR - Universidade Estadual do Paraná, Campus de Apucarana. Com 33 anos de experiência na área da educação, trabalhou por 25 anos no mercado financeiro e é funcionário da rede pública de ensino do Estado do Paraná. Além disso, é proprietário e editor do site Os Argonautas Mídia Alternativa e fundador e proprietário do projeto pela democratização da leitura, Sebo Apucarana.
SALTURI, Antonio Paulo. O Movimento Paranista e a busca de uma identidade regional: as artes plásticas no Paraná (1900–1950). Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2007. https://shre.ink/5g4x
ALVES, Fernando Caetano. O Paranismo: A Invenção de uma Identidade. In: História: Questões & Debates. Curitiba: UFPR, n. 34, 2001.https://shre.ink/5g4S
CAMARGO, Geraldo Leão Veiga de Paranismo: arte, ideologia e relações sociais no Paraná 1853 - 1953 / Geraldo Leão Veiga de Camargo – Curitiba, 2007. 213 f. https://shre.ink/5g45

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