O Silêncio Diante da Bestialidade: Brandolini e a Invasão dos Idiotas
- O Argonauta

- há 6 dias
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Nos dias de hoje, percebemos uma retórica muito falaciosa, retórica essa com fins escusos e sorrateiros, que tem levado uma série de pessoas inteligentes ao bestialismo. Isso mesmo: pessoas inteligentes, porém, se tornando bestas; sem pensar, sem refletir ou mesmo ponderar.
Esse fenômeno já era previsto por grandes escritores. Entre eles, podemos resgatar as pérolas atribuídas ao escritor, dramaturgo e jornalista brasileiro Nelson Rodrigues (1912–1980), um homem com um sarcasmo apurado, com frases ácidas e irônicas sobre a sociedade brasileira. Entre elas, citamos a sua mais famosa: "Os idiotas vão dominar o mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos." Ele, na sua abusada escrita, utilizava o termo "idiota" não apenas como um insulto gratuito, mas como uma crítica à unanimidade e ao comportamento de manada. Para ele, a "invasão dos idiotas" representava a perda do pensamento crítico individual em favor de ideias rasas que ganhavam força apenas porque muitas pessoas as repetiam.
Em minha pesquisa sobre esse efeito, não posso esquecer de citar um velho rabugento, brilhante e polêmico: Umberto Eco. O pensador italiano causou polêmica ao dizer algo muito próximo em relação à internet: "As redes sociais dão o direito de falar a legiões de idiotas que antes só falavam em um bar, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade", e ele não deixou de ter razão.
Outra citação que vou utilizar neste post é do escritor que permeou meu imaginário científico, Isaac Asimov. Escritor de ficção científica, um cara com quem minha saudosa mãe brigava comigo pelos livros dele que eu lia, ela o chamava de "esquisitão", mas o cara era um gênio. Um sujeito que previu muitas coisas que estão acontecendo hoje, inclusive nesta escatologia; nos alertou sobre o "culto à ignorância", onde a ideia de democracia é interpretada erroneamente como "minha ignorância vale tanto quanto o seu conhecimento".
As citações de Nelson Rodrigues, Umberto Eco e Isaac Asimov ressoam fortemente hoje devido à facilidade com que ideias simplistas se espalham, conectando-se diretamente com a Lei de Brandolini. Para nossos navegadores, a Lei de Brandolini, também conhecida como o Princípio da Assimetria da Besteira (Bullshit Asymmetry Principle), é uma observação sobre como o fluxo de informações funciona na prática. De forma didática, ela pode ser resumida em uma frase: é muito mais fácil falar uma besteira do que provar que ela é falsa. E aí está o x da questão; aí está o princípio da bestialidade das pessoas inteligentes, porém sem memória crítica, do indígena Ailton Krenak.
A teoria do programador italiano Alberto Brandolini, a "Equação do Esforço", foi formulada em 2013, quando ele observou que existe uma desigualdade matemática no esforço intelectual. Se usarmos E para representar a energia gasta, a lei seria:

Ou seja: a energia necessária para refutar uma "besteira" é uma ordem de magnitude muito maior do que a necessária para produzi-la. Segundo Brandolini, isso acontece porque a assimetria existe uma vez que quem cria uma desinformação não precisa seguir regras, mas quem a desmente precisa seguir todas. Vai muito mais além: para criar a besteira, não é preciso lógica, fontes, evidências ou contexto. Basta criatividade, má-fé e desonestidade, pois é um processo quase instantâneo.
Já para refutar a besteira, você precisa de pesquisa, dados estatísticos, citações verificadas, construção de um argumento lógico e tempo para explicar tudo isso de forma compreensível. Mas o problema é que não dá tempo, e o mentiroso continua a fazer estragos. Ele, em sua teoria, nos dá um exemplo prático. Imagine a seguinte situação: a "Besteira" (5 segundos), alguém posta na internet: "O limão cura o câncer porque ele é 10.000 vezes mais forte que a quimioterapia". Já a refutação (horas ou dias), um médico ou cientista precisará explicar o que é o pH, como funciona a quimioterapia, citar estudos clínicos reais, explicar que o limão é um alimento saudável, mas não um quimioterápico, e mostrar por que essa comparação de "10.000 vezes" não faz sentido biológico.
O tempo da explicação e sua propagação é muito lento diante da mentira, pois a mentira já foi compartilhada por milhares de pessoas, enquanto a explicação técnica, por ser longa e complexa, atinge um público muito menor. Então, a Lei de Brandolini explica por que o debate público na era das redes sociais é tão exaustivo. Ela gera três problemas principais:
A exaustão do especialista: quem detém o conhecimento real desiste de corrigir as informações porque o trabalho é infinito e cansativo;
A poluição informativa: ou seja, o volume de "ruído" (besteiras) soterra a informação de qualidade;
A vantagem tática do criminoso: ou seja, quem não tem compromisso com a verdade está sempre "um passo à frente" na velocidade da comunicação.
O grande desafio hoje é lidar com isso, pois a lição da Lei de Brandolini não é o pessimismo, mas a seletividade. Como é impossível desmentir tudo, Brandolini sugere focar em ensinar as pessoas a pensarem criticamente, para que elas mesmas identifiquem o "padrão" da besteira antes de precisarem de uma refutação formal.
É por isso que hoje o mundo é dos bestializados, pessoas sem pensamento crítico, sem memória crítica. Mas, no final, as coisas acontecem e o nosso silêncio diante da ignorância fica evidente.
Prof. Daniel Mota
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Prof. Daniel Mota é graduado em Filosofia pela UFPR (1996), especialista pela PUC/PR e pós-graduando pela UNESPAR (Campus Apucarana). Com 33 anos de experiência na educação e 25 no mercado financeiro, atua na rede pública de ensino do Estado do Paraná. É editor do portal Os Argonautas Mídia Alternativa e fundador do projeto de democratização da leitura Sebo Apucarana.
MAESTRI. Rogério. Lei de Brandolini, quando um TI produz filosofia pura. Disponivel em: https://jornalggn.com.br/artigos/lei-de-brandolini-quando-um-ti-produz-filosofia-pura/ , São Paulo, 30 abri. 2019. Disponível em: jornalggn.com.br. Acesso em: 27 jan. 2026.
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MEIRA, Silvio. Narrativas, distopias, extremismo: soluções? Silvio Meira. Janeiro. 2023. Disponível em: tinyurl.com/572ue7zv. Acesso em: 24 janeiro 2026.

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