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Petrodólar, sanções e narrativas: como se constrói o inimigo no cenário internacional

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    O Argonauta
  • há 24 horas
  • 4 min de leitura


No texto anterior, apresentei como os Estados Unidos transformaram o dólar americano em uma moeda global e hegemônica. Vale relembrar que, desde a década de 1970, o sistema do petrodólar consolidou-se como um dos pilares da economia mundial. Ao estabelecer o dólar como moeda dominante no comércio internacional de petróleo, os EUA estruturaram um arranjo que combina poder financeiro, influência política e capacidade de coerção econômica. Sempre que esse sistema é questionado, a reação costuma ir muito além da diplomacia.

Ao longo das últimas décadas, países produtores de petróleo que buscaram operar fora da lógica do dólar enfrentaram não apenas sanções econômicas e isolamento financeiro, mas também campanhas narrativas cuidadosamente construídas para legitimar intervenções e medidas punitivas perante a opinião pública internacional.

É notório que as narrativas funcionam como instrumentos centrais de poder e de manutenção do petrodólar. Elas costumam ser as primeiras armas mobilizadas. Antes mesmo da imposição de sanções ou do uso da força militar, há um elemento recorrente: a construção do inimigo. Governos que desafiam a hegemonia do dólar raramente são tratados apenas como adversários econômicos. Com frequência, passam a ser enquadrados como regimes autoritários, ameaças à democracia, Estados terroristas ou centros de atividades criminosas.

Essas narrativas cumprem uma função estratégica. Ao enquadrar os conflitos em termos morais, democracia versus tirania, segurança versus ameaça, reduzem-se os espaços para o debate sobre interesses econômicos, energéticos e financeiros envolvidos. O resultado é a demonização sistemática daqueles que ousam enfrentar ou mesmo questionar a centralidade da moeda americana.

Nesse contexto, consolidou-se uma narrativa dominante que atribui quase exclusivamente aos governos locais a responsabilidade pela situação calamitosa vivida por esses países. O foco desloca-se das sanções, do cerco financeiro e das pressões externas, fatores que incidem diretamente sobre essas economias. Paralelamente, a mídia internacional e setores da imprensa local passaram a rotular esses governos como “ditaduras” ou “regimes autoritários”, aprofundando a polarização política e fragmentando a sociedade. Esse ambiente favoreceu o surgimento de grupos internos alinhados a interesses externos, que passaram a atuar como intermediários políticos e econômicos, legitimando agendas estrangeiras sob o discurso da restauração democrática. O resultado foi o enfraquecimento da coesão nacional e a internalização de um conflito que, em grande medida, teve origem fora das fronteiras desses países.

Além das guerras, sanções e bloqueios financeiros, os países que ousaram confrontar a hegemonia do dólar enfrentaram processos contínuos de desestabilização política e econômica interna. A escassez de divisas, a inflação elevada, a retração dos investimentos e o enfraquecimento das cadeias produtivas passaram a compor um cenário de crise prolongada.

Nesse cenário, as chamadas armas econômicas do sistema internacional ganharam centralidade. O uso de instrumentos financeiros como ferramentas de pressão tornou-se parte estruturante da política internacional. Entre eles, destaca-se o sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), rede que conecta instituições financeiras em mais de 200 países.

A exclusão ou restrição de acesso ao SWIFT dificulta transações comerciais, importações, exportações e operações bancárias, funcionando como uma sanção de alto impacto. Embora apresentado como um mecanismo técnico e neutro, seu uso recorrente em disputas geopolíticas o transformou em uma poderosa arma econômica.

No ano 2000, o Iraque anunciou que passaria a vender petróleo em euros. Poucos anos depois, o governo de Saddam Hussein foi acusado de possuir armas de destruição em massa, alegação que serviu de base para a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003. As armas jamais foram encontradas. O resultado foi a queda do regime, a destruição das estruturas do Estado iraquiano e um prolongado período de instabilidade. Após a ocupação, o petróleo iraquiano voltou a ser negociado em dólares.

A Líbia, sob Muammar Gaddafi, defendeu a criação de uma moeda africana lastreada em ouro para o comércio de petróleo. Paralelamente, o líder líbio passou a ser retratado como uma ameaça humanitária. Em 2011, uma intervenção da OTAN, justificada como proteção de civis, resultou na queda do regime e na morte de Gaddafi. O país entrou em um processo de fragmentação política e militar que persiste até hoje.

O Irã adotou mecanismos para vender petróleo fora do dólar e criou estruturas financeiras alternativas. Em resposta, passou a ser enquadrado como “Estado patrocinador do terrorismo” e alvo de acusações relacionadas ao seu programa nuclear. O país sofreu sanções econômicas severas, bloqueio de ativos, restrições bancárias e exclusões parciais do sistema SWIFT. Embora não tenha ocorrido uma invasão militar direta, o Irã permanece sob intenso cerco econômico e político.

Já a Venezuela, detentora de grandes reservas de petróleo, buscou reduzir sua dependência do dólar em transações internacionais. Simultaneamente, consolidou-se uma narrativa que associa o país ao autoritarismo, ao narcotráfico e à ameaça regional. Sem uma guerra aberta, a Venezuela foi alvo de sanções financeiras, congelamento de ativos no exterior e severas restrições ao comércio internacional. Analistas apontam que essas medidas tiveram impacto direto sobre a economia e as condições sociais do país.

Iraque, Líbia, Irã e Venezuela apresentam contextos políticos distintos. No entanto, compartilham um elemento comum: todos desafiaram, em algum grau, a lógica do petrodólar. Em resposta, enfrentaram combinações de pressão diplomática, sanções econômicas, campanhas narrativas e, em alguns casos, intervenção militar.

A recorrência desse padrão indica que, no sistema internacional contemporâneo, disputas monetárias e energéticas dificilmente são tratadas apenas como questões técnicas. Elas se inserem em uma dinâmica de poder na qual economia, política, narrativa e força caminham lado a lado.

 

Prof. Daniel Mota

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Prof. Daniel Mota possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná (1996), especialização em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR) Campus Curitiba e é pós-graduando na UNESPAR - Universidade Estadual do Paraná, Campus de Apucarana. Com 33 anos de experiência na área da educação, trabalhou por 25 anos no mercado financeiro e é funcionário da rede pública de ensino do Estado do Paraná. Além disso, é proprietário e editor do site Os Argonautas Mídia Alternativa e fundador e proprietário do projeto pela democratização da leitura, Sebo Apucarana.


 
 
 

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